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O Voo do Espírito

Autor: Djalma Argollo

Deus criou todos os Espíritos simples e ignorantes, quer dizer, sem conhecimento (O Livro dos Espiritos, questão 175).

E, por falar em voo do espírito, vou utilizar a expressão migração evolutiva, para denominar seu jornadear da indiferenciação inconsciente, da sua gênese, até a diferenciação consciente que vive atualmente na espécie humana.

Nesse voo, viveu inúmeras paradas de aprendizado e geração de experiências. Primeiro na matéria inorgânica, onde desenvolveu automatismos fundamentais, até se transladar para a matéria orgânica, que lhe proporcionou múltiplos recursos para o desenvolvimento de possibilidades diversas de manifestação, de acordo com o impulso inato, porque não dizer arquetípico, por ser uma impressão do princípio, ou melhor, imagem primordial de busca do autoconhecimento, imposto no próprio ato de sua criação.

Desde o momento que pôde manipular a matéria orgânica, explorando sua plasticidade e possibilidades de mutação, sua migração evolutiva se tornou progressivamente mais veloz, ampliando sua diferenciação interna e externa. Pode-se, grosso modo, fazer analogia entre o que aconteceu nos primeiros momentos do Big Bang, dizendo que a indiferenciação arquetípica primordial do espírito se dividiu em um número imenso de diferentes possibilidades, graças às condições instintivas que a matéria vivia proporcionava.

Desde então, vencido o estágio nos organismos elementares das bactérias primitivas, a criação de organismos pluricelulares ampliou de forma dramática sua capacidade de explorar meios e modos evolutivos diversos, tanto animais quanto vegetais.

E, no que se refere à capacidade de voar, tomada aqui em sua expressão literal, foi experimentada pelo espírito em suas experiências há cerca de 150 milhões de anos atrás, em pleno período dos dinossauros, com o pterodáctilo e o arqueopterix. Ou seja, com os répteis se tornando ancestrais das aves modernas.

Essas breves citações nos colocam diante da característica fundamental do espírito: a exploração de possibilidades inúmeras, no objetivo, inconsciente para a maioria, de descobrir o que essencialmente é, e porque verdadeiramente existe.

O Criador não o criou perfeito, mas perfectível. Por isso, ao produzir o veículo que se denomina corpo humano, com um sistema nervoso aprimorado, ele entrou de posse de um instrumento, um personagem para se apresentar no plano físico, com a capacidade de lhe proporcionar alçar voos mentais criativos, ilimitados, para ambientes os mais incríveis e distantes, tanto no mundo, quanto fora dele.

Com esse instrumento, com o qual está em contínuo aprimoramento relacional, o espírito amplia conhecimento e domínio sobre a natureza e suas leis, usando-as para os grandes traslados na incansável busca do conhecimento de si mesmo, e do meio universal onde existe. Com esse maleável personagem, explora possibilidades inúmeras para a atingir sua meta, seu objetivo existencial.

Agora se descobre independente da matéria que usa, e descobre que a pode explorar melhor em proveito da própria realização. Aprimorando esse personagem cada vez mais, se prepara para alçar o voo maior, na direção das estrelas, no aspecto externo, e do mergulho, fundamental, no seu universo interior, numa heroica jornada para realização do eu sou.

O espírito, agora, tem a forte intuição de que tal descoberta o fará iniciar uma nova jornada, cujas características e possibilidades ele não pode antecipar, senão em especulações transcendentes, mas fantasiosas. Afinal de contas, será um reencontro, tanto interno quanto externo, com o seu Criador, o qual não sabe o que é, nem como é, mas para o qual se sente atraído como uma planta que, institivamente, busca o sol que lhe dá a vida.

É o sagrado trajeto do alfa ao ômega de sua existência, assim como fez o filho pródigo da parábola ao se despir de todas as ilusões, e sorver o cálice amargo da decepção consigo mesmo, correndo ao reencontro do seu pai, para confessar ter descoberto, por fim, que, somente junto a ele, e sob sua proteção, pode encontrar a paz e a jovialidade perdidas. O mais interessante, pode-se elucubrar, será ele descobrir, entre espantado e maravilhado, que, durante todo o seu jornadear, às vezes incongruente e errático, o Criador sempre esteve nele mesmo. Será a descoberta que os dois sempre foram, e sempre serão, um somente; que ele, em verdade, não passa de Sua imagem e semelhança.

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