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A subjetividade no mediúnico: aspectos psicológicos

Autor: Adenáuer Novaes

O mediúnico é subjetivo por natureza, pois ocorre pelo Inconsciente humano. Não pertence à consciência, muito embora deva tornar-se consciente para o crescimento humano. Sua objetividade deverá ser posta a serviço do ser humano em sua busca pela felicidade.

Por mais que sejamos preconceituosos com a mediunidade, considerando-a produto religioso ou fruto de crendice popular, ela interfere intensamente no estado psíquico e emocional do ser humano. Não é ela uma faculdade extra-humana nem tampouco adquirida exclusivamente no exercício de práticas transcendentes e místicas, pois sua aquisição é fruto do desenvolvimento da consciência nos milênios de evolução da espécie. Ela se estruturou, no ser humano, a partir de seu contato com a morte como fenômeno não controlável e catalisador de acesso ao Inconsciente, tanto para aquele que desencarna como também para os seus, que ficaram.

A mediunidade é uma aquisição evolutiva do espírito em face de seu refinamento, possibilitando-lhe perceber uma dimensão energética acima da vibração típica do corpo físico. Ela permite uma comunicação entre seres, através do períspirito, em frequência que superam aquela que ocorre com os sentidos físicos e por meio dos centros cerebrais. Sua percepção pelo ser humano foi possível graças à evolução de seu aparelho cerebral, pois, quando este se mostrou maduro e com o córtex desenvolvido, a faculdade tornou-se perceptível.

Seu alcance é maior do que aquele que usualmente se observa na prática da desobsessão. Tratando-se de algo adquirido pela evolução do espírito em benefício de seu próprio progresso e felicidade, sua utilidade transcende o auxílio espiritual a desencarnados.

Como tudo que é adquirido pelo espírito em evolução, sua estruturação se localiza no períspirito, instrumento com o qual o Espírito se comunica com o mundo. As faculdades humanas foram adquiridas e desenvolvidas no contato do Espírito com a matéria, cujo produto resultante, de um lado, foi a constituição do períspirito e, do outro, a absorção, pelo Espírito, do conhecimento das leis de Deus.

Os estudos de Allan Kardec, principalmente aqueles constantes em O Livro dos Médiuns, proporcionaram um olhar mais objetivo e crítico sobre a mediunidade, tornando-a perceptível aos meios intelectuais. Isso, por si só, não a tornou popular ou esgotou seu estudo e sua compreensão.

A mediunidade é faculdade humana e deve ser utilizada para a felicidade do ser encarnado ou do desencarnado. Seu não uso promove atrofia e limitações evolutivas. Quando digo uso, não me refiro àquele decorrente da prática espírita, de utilidade óbvia, mas à ampla aplicação na Vida em geral, principalmente nas ricas relações humanas. Sua não utilização pode ser comparada à atrofia decorrente do não uso das asas, que fez surgir espécies de voo baixo e limitado, como os pavões, incomparavelmente belos, mas cujos apêndices lhes servem mais como enfeites.

As práticas místicas e ritualísticas de povos primitivos, nas quais fenômenos mediúnicos era referenciados, revelam a força psíquica da mediunidade que atravessa os séculos com a mesma atratividade. Os metapsiquistas e parapsicólogos do passado se ocuparam em demonstrar a veracidade do fenômeno mediúnico, enquanto os espíritas de hoje mostram o seu alcance a serviço do bem-estar dos médiuns e na prática da caridade aos desencarnados. Ir além disso, que é necessário, é disseminar o uso da mediunidade na vida prática do ser humano sem torná-la instrumento de degradação dos valores morais já conquistados.

O ser humano jamais poderá viver sem esta excelente faculdade, inerente à sua atual condição: estar conectado à matéria pelo períspirito. Sua utilização representa um degrau acima na evolução espiritual e é fundamental para o desenvolvimento psicológico do indivíduo. Sem seu uso não avançará muito na evolução, por outro lado, o uso que fará dessa faculdade permitirá que avance na escala evolutiva, desatrelando-se, de forma transcendente, da matéria bruta, da mesma forma que outrora o réptil alçou voo na condição de ave portadora de asas para gozar de sua natural liberdade.

As polaridades da evolução (material e intelectual) são extremos que revelam, entre si, um espectro muito largo de possibilidades evolutivas. Entre elas (as polaridades) existem processos a se desenvolverem para que se alcancem níveis evolutivos superiores. Um deles é o desenvolvimento e o uso da mediunidade.

O exercício da mediunidade não é um ato que pertence ao espírito desencarnado. A mediunidade pertence ao médium que, embora não seja autor do fenômeno que por ventura se produza, pode, às vezes, sob certas condições, provocá-lo. A educação da faculdade é responsabilidade do médium, que deve coloca-la a serviço de situações que transcendem a da ajuda a desencarnados necessitados de esclarecimentos. A mediunidade é mais do que uma faculdade para a desobsessão de espíritos. É uma janela do Espírito para as dimensões do Universo.

A consciência pelo médium, de que é portador da faculdade mediúnica contribui para seu desenvolvimento em face da permanente ligação que ela favorece com o espiritual. É essa consciência que o fará educá-la a serviço de sua realização pessoal. Por enquanto usamos a mediunidade como instrumento para obtenção de algum favor proveniente das forças espirituais. Ainda a usamos numa relação de troca. Queremos, com ela, obter alguma vantagem sobre algo com o qual não sabemos lidar objetivamente.

Muitas vezes estabelecemos uma relação com os espíritos como o fazemos com Deus. Atribuímos a eles um certo poder divinatório de tudo fazer em nosso favor. Nem sempre o conseguem. Bom quando o fazem. Independente do resultado do pedido, porém, isso demonstra que os colocamos num certo lugar de detentores do poder e a nós de eternos pedintes. Eles são pessoas. Nada mais do que isso. A cultura mítica de reverenciar os espíritos favorece uma relação subserviente e desigual, depreciando a mediunidade.

Se, de um lado, malbaratamos a mediunidade, estimulando o seu uso exclusivamente na esfera institucional, do outro, em face de ser a mente humana por demais complexa, a Psicologia vem negando com veemência a possibilidade das comunicações mediúnicas. No entanto, quanto mais o conhecimento avança mais se desprende o véu da ignorância quanto aos intrincados processos psíquicos. É no estudo do inconsciente e das capacidades intelectivas humanas que se descobrirá a existência do períspirito, sede dos processos psicológicos e mediúnicos do ser humano. Isolar o mediúnico do anímico-psicológico, por enquanto, é como separar a água do vinho. Eles estão intimamente ligados numa feliz interdependência.

A mediunidade é uma faculdade tão subjetiva que não nos damos conta da gama de fenômenos que só ocorrem por conta de sua existência. Por exemplo, as ligações amorosas entre os espíritos encarnados e desencarnados também ocorrem pelas vias da mediunidade sem que, na maioria dos casos, eles se deem conta. Da mesma forma, as transmissões do saber e de sentimentos ocorrem pela faculdade mediúnica que as criaturas possuem.

Será sempre um desafio ao ser humano transcender sua materialidade. Por muito tempo buscará, em seu corpo e de acordo com paradigmas enraizados nas estruturas cerebrais, explicações para o psiquismo humano. A linha divisória entre o que é material e o que é espiritual inexiste. Mesmo aqueles que se encontram desligados do corpo físico têm dificuldade em estabelecer a diferença entre uma dimensão e outra.

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